domingo, 23 de junho de 2013

Na Espanha como no Brasil

Olá, queridos!

       Tinha tudo para ser como previsto: um evento teste, os narradores esportivos exaltando nossas qualidades pátrias, a seleção encontrando seu futebol. Mas não foi assim. Tenho certeza que algum acessor de uma ilustríssima excelência propôs aumentar as passagens justamente nesta época. Afinal, ninguém ia perceber aqueles 20 centavos nas passagens em época de Copa das Confederações ?

       Errado. Dessa vez chega. Mais um aumento sem a contrapartida de melhoria de serviços? Aliás, outro aumento e nunca houve um o serviço de qualidade. Chega. Basta. Palavras que pareciam estar fora do vocabulário brasileiro. Foram para as ruas, ainda que com algum exagero, infelizmente, mas ao menos o povo acordou.

        Na Espanha aconteceu o mesmo no ano de 2011 quando a crise mostrava sua face mais cruel: o desemprego dos jovens. No dia da festa do padroeiro de Madri, 15 de maio, havia um protesto convocado, mas ao contrário de outras maifestações, um grupo decidiu acampar na Porta do Sol e lá ficou durante meses, inclusive coincidindo com a Jornada Mundial da Juventude. Foram chamados de "indignados" e seu exemplo se espalhou por outras cidades do país que também resolveram acampar em pontos estratégicos. O grito que os unificava era "Democracia Real Já", algo tão genérico quanto significativo.

      Na época, quem governava era o PSOE e mantendo a tradição da esquerda em ser tolerante ao clamor popular, as autoridades foram deixando o acampamento ficar. Interessante observar que os partidos políticos foram rechaçados sistematicamente. Assim, a medida que passava o tempo, acusaram-nos de não terem líderes, nem reivindicações claras e depredar o patrimônio público.

        Por que esses jovens não tem líderes? Porque essa geração não suporta que lhes digam o que devem fazer, pois viram que os líderes não são heróis, não resolvem os problemas em um passe de mágica e por isso, eles mesmos tem que assumir o protagonismo. Quanto à falta de uma pauta concreta, penso que é relativo. Nos anos 60 quem saía às ruas lutava também contra grandes causas: fim da ditadura, fora FMI, fora EUA e muitas outras.

       Ao contrário da maioria, acho muito fácil identificar os anseios dessa gente. As pessoas estão cansadas de ouvir um discurso quimérico e constatar a realidade. Escutar que o Brasil está crescendo, rico e próspero, mas o Estado não acompanhar com qualidade com serviços mais caros e menos eficientes. Também pesa a percepção de que o Brasil realmente vive um momento de prosperidade, mas resolve gastar essa dinheirama toda em...estádios.

        Quanto à depredação do patrimônio público, a face mais triste destes movimentos, aqui na Espanha, não ocorreu na escala brasileira. Houve, sim, muita repressão policial e a suavidade de sempre. Agora, está muito pior, pois o governo do PP tende a ser menos tolerante que o do PSOE e manda os policiais usarem toda sua delicada tática persuasiva para não deixar os protestos progredirem.

          Qual foi o destino dos indignados? Bem, o acampamento madrilenho foi dissolvido durante a madrugada, meses depois do PP ter ganho as eleições e isso aconteceu em todas as outras localidades com maior ou menor repressão policial. O movimento se dividiu entre aqueles que preferem continuar lutando sem personalidade partidária e os que desejam incorporar-se ao sistema político vigente. Todo 15 de maio é feito uma reedição da marcha que originou aquele movimento, mas sem o entusiasmo inicial. Outros problemas, mais concretos, como a privatização da saúde pública madrilenha, o aumento do desemprego, dos despejos e da dívida, ocuparam a agenda política de diferentes setores.

            Será este o destino do movimento brasileiro? Vamos ver. No Brasil, a presidente respondeu aos manifestantes em uma semana. Se essa resposta agradou vou ter que discutir em outro momento. Aqui, nem Zapatero e muito menos Rajoy deram as caras para explicar o que fazer com aquele mar de gente nas ruas. E agora? Continuar a protestar? Acampar em frente a casa das autoridades? (Aqui também já estão fazendo o mesmo). Uma coisa é certa: depois destes acontecimentos vai ficar difícil alguém defender a tese que somos um povo alienado pelo futebol. Provamos que sabemos torcer pelo nosso time, mas também indignarmos contra as mazelas cotidianas. Que este sentimento seja duradouro.
       
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