terça-feira, 3 de junho de 2014

O Rei abdicou. E agora?

Olá, queridos!

            Todos já estão sabendo. Sua Majestade, o Rei dom Juan Carlos I, abdicou do trono espanhol a favor do seu filho, Felipe. Parem as rotativas!! Um anúncio que surpreendeu a todos, pois em várias ocasiões ele tinha declarado que só sairia do cargo quando morresse. O que teria feito o monarca mudar de opinião? Por que parte dos espanhóis saíram às ruas para pedir um referendum onde pudessem escolher a República como regime de governo e não uma monarquia? Vou tentar responder essas e outras perguntas dando a visão dos que são a favor e contra o soberano.

          Primeiro, um pouco de aula de História. Adoro!! Afinal, sou professora desta matéria, esqueceram ? Corria o ano de 1931 e a Espanha estava um caos, como o resto da humanidade. O rei da época, Alfonso XIII é derrubado e sua família real é exilada em Roma enquanto a República foi proclamada na Espanha. Ali estava Juan de Borbón e Batenberg, pai de Juan Carlos, que nasceria no exílio em 1938. Ele nunca chegou a ser rei de fato, mas foi rei de direito.

           Bem, em 1936, Franco e sua turma acharam que os republicanos já estavam há muito tempo no poder e foram tentar derrubá-los. Três anos de guerra civil, cidades destruídas, corpos que nunca foram encontrados e muitas injustiças depois, Franco vence e instaura a ditadura que duraria até 1975. Franco nunca escondeu que não gostava de Juan de Borbón, mas o filho, quem sabe ? O menino vai estudar na Espanha sob sua supervisão e depois de muito percalços, Juan Carlos acaba sendo apontado como sucessor de Franco.


       
           Juan Carlos, príncipe da Espanha, começa a encontrar-se com representantes de todos os setores - inclusive os clandestinos como os partidos socialista e comunista - para garantir sua posição. Vem daí seu trabalho de ser um fiel da balança e tentar conciliar as diferentes visões deste novo país. Sem falar na questão separatista! Os grandes partidos de esquerda e direita entram em acordo e pactam que o regime da nova Espanha democrática seria uma monarquia parlamentarista, Juan Carlos ostentando a coroa.

             Aí que vem o nó da questão. Quem é contra diz que a monarquia foi imposta e encarnada por um discípulo de Franco. Quem é favor diz que ele foi, sim, educado por Franco, mas desmontou peça por peça o regime implantado por este.

            Então, sem consulta popular, sem referendum, apenas com a voz dos deputados, foi instaurada a constituinte, e se começa o regime monárquico parlamentarista. Outra crítica a este fato. Os republicanos alegam que o povo não foi ouvido e que tem direito a expressar sua opinião.
Por isso, ontem eles foram às ruas em várias cidades da Espanha e pedir que se realizasse uma consulta popular.  
       

            Pausa para um pequeno parelelo. Gostaria de lembrar que aconteceu algo semelhante no Brasil quando a ditadura militar terminou. Um deputado colocou em votação uma proposta para escolher o presidente por eleições gerais. O movimento ganhou corpo e passou à História como Diretas-Já. Milhares foram as ruas, mas os militares (e os civis que colaboraram com o regime), derrotaram a emenda. O presidente foi escolhido no Congresso, Tancredo e Sarney foram eleitos e o resto vocês já sabem... Mas, nunca, naquele período ou atualmente foi dito que a atual República foi herdeira dos militares e que havia um discípulo deles lá. E olha que vocês conhecem de onde vem o maranhense.

          Já comentei sobre as dificuldades que o rei atravessava ultimamente em um post. O genro bonitinho, mas ordinário; caçadas na África (patrocinadas com dinheiro privado) e problemas de saúde. No mais, a crise econômica espanhola e o espinhoso referendum unilateral da Catalunha.

          A renúncia de dom Juan Carlos me lembra outra renúncia, a do Papa Bento XVI. Diante dos problemas que se delineavam no horizonte, o pontifície reconhece que não tem energia e nem habilidade para lidar com eles. Quantos presidentes da República fizeram isso ? Quantos diretores de empresas ? Quantas vezes você já fez isso? Ah, o poder! O mais eficiente dos afrodisíacos segundo dizem por aí. Não é coincidência que todo presidente tenta a reeleição e quem chega lá em cima esquece que está aqui embaixo.

         Embora a crise econômica esteja cedendo, a Espanha agora enfrenta uma crise política. O bipartidarismo vem sendo questionado nas últimas eleições e os partidos pequenos e não tradicionais começam a conquistar espaço. Além disso, há o referendum para saber se os catalães devem ou não ser um Estado independente em novembro e todo o barulho que os republicanos estão fazendo a respeito do regime político espanhol. Felipe VI terá um longo caminho pela frente.

 

           
Postar um comentário