domingo, 22 de dezembro de 2013

O parto

Olá, queridos!

           Finalmente publico o post narrando como foi o meu parto. Espero que ajude a todas aquelas que desejam fazê-lo naturalmente. Para ler a primeira parte basta clicar neste link aqui.

           Por fim, chegou o dia de conhecer a matrona (doula, em português). Minhas alunas me animaram bastante e todas disseram que tiveram ótimas experiências. Poxa, devo estar com uma urucubaca danada. Tinha milhões de dúvidas sobre o parto e mal sentei, ela já foi dizendo que se eu tivesse dúvidas sobre o nascimento, que esperasse o curso onde as perguntas seriam esclarecidas. Bem, respondi delicadamente que não tinha nada pra fazer ali, pois só tinha dúvidas sobre o tema. Conversamos um pouco mais e encerrei logo a conversa bastante chateada, mas pelo menos já tinha as datas dos encontros.

O curso, sim, foi o melhor de tudo. Logo na primeira aula, a matrona iniciou a explicação com uma frase que jamais esquecerei: “quem faz o parto são vocês, quem vai parir o filho são vocês. A matrona pode estar ali, segurar a mão, dançar uma sevillana, mas quem vai dar a luz, são vocês.” Caramba! Anos e anos ouvindo, “quem vai fazer seu parto?” arrasados em dois segundos. Sou EU quem vou parir, EU que vou botar no mundo uma criatura. Meu marido vai estar lá, claro, mas a responsabilidade é MINHA! Vou ser sujeito e não mera espectadora do nascimento do meu filho.

O curso está estruturado em cinco partes: as últimas semanas da gravidez, os diversos tipos e as etapas do parto, possíveis complicações, procedimentos burocráticos (registro de nascimento, licença maternidade, etc.), e pediatria/cuidados pós-partos. Na primeira aula já fizemos exercícios de respiração.

       Na semana seguinte, a professora tinha sido substituída por outra muito melhor. Ela foi informando como a gestante deve proceder; quais são os sinais que nos indicam que os trabalhos já começaram, contou o que pode dar errado e nos mostrou as soluções para cada caso. O mais legal é que ela sempre minimizava tudo. Se o bebê for grande? Já vi criança nascer de cinco quilos! Se o bebê não estiver encaixado? Pode-se fazer uma manobra. Se a bolsa não rompe? A matrona a fura. E se não tenho contração até a 40ª semana? Vá ao médico, mas dá pra esperar mais duas. E se não tenho dilatação? A ocitocina resolve. E se o bebê está encaixado, mas com o rosto virado pra cima? Dá pra reverter fazendo manobras na hora. E se nada disso der resultado? Aí, sim, faremos um cesárea. E por aí vai. Todas as verdades consagradas no Brasil eram desfeitas como mágica. Tudo que sempre escutei dizer que impediria um parto normal era reduzido a uma banalidade.

      Quando alguma gestante do grupo completava as 38 semanas, a matrona estimulava: façam exercício, sexo (por causa do sêmen), carreguem peso, tudo! Eu cumpri arrisca todas as recomendações. A reta final da gravidez foi parte mais chata para mim, pois já está tudo pronto e comprado e o baby lá dentro.

Enfim. Minha mãe chegou dia 21 e dia 25 andamos, fizemos compras, subi e desci escada. Quando fui dormir comecei a sentir um pouco de dor, mas até aí nada de novo porque pensei eram as contrações preparatórias, que já vinha sentindo desde o começo do terceiro trimestre. Mas como não conseguia dormir de jeito nenhum e o maridão já roncando comecei a pensar que a hora tinha chegado. Aí o acordei com o clássico: amor, acho que é hoje...
         
       Ficamos em pânico? Que nada! Seguimos o roteiro de esperar uma hora para ver se as contrações paravam ou se vinham de cinco em cinco minutos, se a bolsa tinha rompido, etc. Ou seja fizemos tudo que nos ensinaram. Quando o tempo regulamentar passou me arrumei, fiz a última revisão na minha mala e no quarto do baby. Ah! E ainda me lembrei de cortar minhas unhas ! 

Como não tinha dilatação suficiente, nem a bolsa tinha estourado tive que ficar na sala de espera  por duas horas para ver se o quadro mudava. Mas não pensem que era um lugar lotado e sujo. Ali tinham uns três pais ansiosos e uma gestante que estava com enjoos fortes. Como nada disso aconteceu, voltei para a enfermeria e a profissional que antendeu resolveu me encaminhar à sala de parto para que avaliassem a minha situação. Chegando lá a matrona que me acompanharia constatou que era melhor induzir o parto com ocitocina do que ficar esperando mais pela dilação. Depois me perguntou se iria tomar a peridural. Claro, minha filha, onde eu assino? Ela me entregou o termo de responsabilidade, assinei e fiquei aguardando. 

       Sempre tive certeza que tomaria a anestesia. Respeito e admiro que não a toma, mas achei melhor. Já estava me sentindo o máximo poder fazer o parto normal, não ter sido pressionada para fazer cesárea e resolvi encarar todos os riscos que esta anestesia pode trazer.

       Finalmente chegou o anestesista e tudo mudou. Pausa: este foi o único médico com quem tive contato, pois todos os outros profissionais eram enfermeiros ou matronas. Sei que tinha um médico ali para qualquer eventualidade, mas ele não fica presente durante o parto. Afinal, quem vai parir é a mulher e não o médico.

        Depois da peridural tudo mudou. Não sentia mais as contrações e pude relaxar. Aliás, a matrona nos recomendou que dormíssemos, pois o parto ia demorar. Antes de cochilar, meu marido e eu fizemos o que as pessoas do século 21 fazem para avisar os amigos: postei no Facebook que estava na maternidade e meu marido mandava SMS. Notem que ninguém sabia que estávamos lá, pois tínhamos ido para o hospital de madrugada.

        De tempos em tempos uma das matronas aparecia, me avaliava, perguntava como estava tudo. Numa dessas anunciou que meu filho estava com rosto voltado para cima; mas que não me preocupasse que ela tentaria revertê-lo me mudando de posição ou virando-o quando chegasse a hora. Quando ela saiu nos lembramos de que no curso tínhamos ouvido uma história parecida e nem ligamos. Continuamos conectados lendo as mensagens positivas que chegavam!

       Até que fui sentindo uma pressão grande e cada vez maior em direção à vagina. “É o seu bebê descendo” explicou a matrona “em breve ele vai sair.” Ai! O momento tão esperado aconteceu de repente quando uma tropa de dez pessoas entrou no quarto. Três enfermeiras e um médico para o neném, três matronas para mim, uma enfermeira para auxiliá-las e dois não-sei-quem para ficar vendo o parto, pois dei à luz em um hospital universitário.

        E aí foi lindo. A matrona-chefa me dando força, uma avisando quando deveria empurrar e a outra fazendo as manobras. Quando tentava recostar a cabeça, elas me animavam a tentar uma e outra vez. A enfermeira auxiliar tentou amarrar minhas pernas, mas recusei. Aliás, em momento nenhum troquei o português pelo espanhol. Ok. Devo ter dito um “Ai, meu Deus” de vez em quando, mas sempre mantive a consciência. Como não sentia nada (a peridural é eficiente mesmo!), o parto tem que ser narrado pelas matronas: tá chegando, um pouco mais, respira, mais um esforço, já vejo a cabeça, empurra. Concordo que fica parecendo jogo de futebol, mas convenhamos é um mal menor. Entre uma cirurgia e o Galvão Bueno, escolho o segundo sem pestanejar.
      
    Até que num esforço final, as palavras de apoio do maridão e com uma das matronas empurrando a minha barriga (manobra necessária por causa do meu cansaço e da peridural), senti algo que saía. Isso mesmo: senti algo. Fechei os olhos, dei um grito e quando terminei e abri os olhos, vi a coisa mais bonita do mundo no meu peito, todo pequenino, de olhos abertos e entendendo menos do que eu o que estava acontecendo. Dez minutos depois, as enfermeiras que eram responsáveis por ele o pegaram e o levaram para uma mesa ao lado da minha cama e fizeram os exames de iniciais. Depois me devolveram-no e não nos separamos mais.

      Em seguida dei o seio ali mesmo enquanto me limpavam e me davam alguns pontos. Pronto. Fim de festa ou melhor: começava a festa. Exausta, mas feliz. Missão cumprida. Meu corpo é capaz de parir e minha mente também. Sou mulher, estou preparada e posso fazê-lo desde que me ofereçam as condições adequadas. Agora, quando me perguntarem quem fez meu parto vou encher o peito e dizer:

          - Eu mesma: Juliana Bezerra. Prazer.




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